Terça-feira, Junho 30, 2009



Aí vem ela

Licinha Araújo.



Publicado por Diego Spagnuelo às 22:30
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Sábado, Junho 27, 2009



Introspecção

Aldo Figueiredo, o âncora do "Noticiário da Noite" era um homem comum por trás das câmeras. Comum como qualquer outro homem que tinha uma vida estável e bem arranjada. Gostava de acordar cedo todos os dias e de abrir as janelas da casa para deixar a luz entrar. Frequentava teatros, cinemas e restaurantes finos sempre que tinha vontade. Lia bons livros e revistas aos fins de semana. Gastava consideravelmente pouco com luxos e investia em ações. Um dia, quando seu casamento terminou, perguntou magoado à mulher que até então era sua esposa, o que havia de errado com ele. "Tudo que você faz é comum." - ela disse. Aquelas palavras pareceram vazias no começo, mas logo fizeram sentido para ele. Aldo era mesmo um homem de atitudes comuns. No dia seguinte, não foi à emissora apresentar o jornal. Ficou em casa à companhia de si mesmo, em silêncio, pensando. Telefonou para o trabalho e mentiu que precisava se ausentar por alguns dias para a realização de um tratamento médico. Os dias foram se passando gentilmente. O jornalista retornou ao "Noticiário da Noite" seguido pelos olhares curiosos dos colegas de estúdio. Estava misteriosamente mais bonito e corado, caminhava seguro de si. Já não lembrava aquele homem enfadonho que outrora assombrava os bastidores da emissora com ações previsíveis e postura comedida. Parecia outro indivíduo. Quando o noticiário entrou no ar àquela noite, porém, todo o encanto se quebrou: o homem permaneceu três minutos em silêncio e logo depois começou a chorar, soluçando desesperadamente e pedindo desculpas aos espectadores. Ao que parecia, a mudança havia sido apenas externa. Mas o show devia continuar. No mesmo dia o rapaz do tempo, Vitório Junqueira, foi nomeado o novo âncora. E tudo voltou ao normal.



Publicado por Diego Spagnuelo às 22:22
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Quinta-feira, Junho 11, 2009



Azdro e a mariposa: Equações

Shantara havia escrito diversas obras discorrendo sobre o surgimento das estrelas e dos planetas e detalhado, em estudos, cálculos físicos de grandioso valor científico, mas dizia não perceber perfeitamente algumas sutilezas humanas. Ao amigo Azdro confidenciava que não compreendia por que alguns humanos choravam quando seus filhos nasciam e tantos outros sorriam ao fim de uma batalha, em que milhares haviam morrido. Era infinitamente sensível e inteligente, capaz de manifestar os mais legítimos sentimentos como a amizade e o amor; quiçá virtuosa demais para entender com perfeição outras tantas relações. O príncipe acreditava, porém, que a mariposa-gigante era uma criatura completa, capaz de entender desde as mais inalcançáveis deduções matemáticas até os menos expressivos gestos de emoção. Acontecia que era superior a qualquer outro indivíduo e estava muito a frente de seu tempo, sendo interpretada erroneamente. O próprio Azdro, certa vez, deu-se conta que não compreendia os motivos que levavam alguém a matar pelo poder e os sentimentos divinais que faziam uma mulher abdicar de sua própria vida para resguardar a do filho. E concluíra que o que nele eram limitações do saber, em Shantara eram convites à reflexão. Aquela bela mariposa de asas rubras seria lembrada no futuro por sua sapiência e pela capacidade de entender os seres humanos e de refletir como ninguém sobre eles. Até lá, muitas páginas seriam escritas e outras mariposas menos preciosas nasceriam.



Publicado por Diego Spagnuelo às 21:53
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Domingo, Maio 31, 2009



O pêndulo

Há dois dias a velha Zora resolveu confessar seus crimes e se entregar às autoridades. Na juventude tivera se dedicado às práticas do hipnotismo e descoberto um dom. Com seu pêndulo reluzente arrancava verdades de quem julgasse vantajoso, obrigando a vítima eleita a contar suas mais ocultas intimidades e revelar seus segredos. Depois cobrava altíssimos valores para manter as confissões roubadas em completo sigilo, oferecendo apenas a própria palavra como garantia do "negócio". Ainda assim, raros eram os que se negavam a pagar o preço de seu silêncio. Cargos políticos, tradições familiares e reputações estavam em jogo. Ninguém desejava arriscar, Zora sabia. Algumas semanas atrás, porém, um fato fê-la refletir sobre seu passado: o ex-prefeito da cidade, hipnotizado e chantageado há sete anos, era um homem feliz, benquisto e respeitado, enquanto ela própria não passava de uma velha obsecada pela vida alheia, que tinha o dinheiro como um pretexto de sua perversão. Não havia construído coisas com sua fortuna. Não havia dado qualquer serventia àquele dinheiro. Mais vantajoso teria sido gritar a quem desejasse ouvir os inúmeros segredos de suas vítimas e oferecer ao mundo menos mentiras. Todo esse tempo fora ela a chantageada. Por esse motivo tivera resolvido confessar seus crimes: de certa forma sentia-se agredida; friamente seduzida e enganada por si mesma.



Publicado por Diego Spagnuelo às 19:25
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Sábado, Maio 30, 2009



Como a solidão

O grão-vizir Mahib era um indivíduo repleto de mistérios. Por um motivo desconhecido, apenas se apresentava publicamente envolto em vestes que o cobriam por inteiro e evitava contatos físicos. Dizia-se que jamais fora visto com o corpo ou o rosto à mostra, que não permitia a presença de criados em seus aposentos íntimos e que de maneira alguma realizava refeições à luz do dia. Apesar disso, era justo e honrado como nenhum outro homem. Certa vez um baile de máscaras foi organizado em sua homenagem e toda gente estava convidada. Na noite marcada, com toda sua pompa e distinção, o grão-vizir foi o primeiro a chegar. Vestia um traje riquíssimo formado por diversas camadas de tecido e adornado por pedras preciosas que o cobriam por completo. A máscara que usava havia sido esculpida em prata e refletia com delicadeza o azulado fulgor noturno que se espalhava pelo deslumbrante salão de festas do reino. Aos poucos os demais convidados em seus respectivos trajes foram chegando e o baile se iniciou. Havia muitas especiarias e a música era a melhor de toda a Arábia. Tudo parecia correr bem. De repente, todas as cortinas do ambiente foram descidas e, não fosse o lustre central, o baile se vestiria na mais plena escuridão. Alguns dos presentes, então, se aproximaram do grão-vizir e o imobilizaram com violência. "Arranquem as vestes desta aberração!" - gritou uma voz masculina dispersa entre a multidão. Como todos os convidados do baile estavam mascarados, não seria possível apontar os responsáveis por aquela ousadia. E como os próprios guardas de Mahib estavam do lado dos curiosos, nada seria feito para impedir sua humilhação. O homem se retorcia e gritava inutilmente enquanto boa parte dos presentes exigia seu desnudamento. Muitos eram contra aquele ato de crueldade e pareciam não saber que o baile tivera sido organizado com aquele propósito, mas não puderam deixar o salão porque as portas estavam todas trancadas. Em meio a desordem, um ruído seco ecoou pelo ambiente. As vestes do grão-vizir tinham sido rasgadas. Diante dos olhos famintos e sedentos dos que ali estavam, a revelação tivera sido feita: embora não parecesse crível, aquele nobre homem era transparente como o ar, invisível como a solidão. Nem seus olhos, nem seus braços e nem seu peito puderam ser vistos. Naquele momento nenhuma palavra ousou ser dita. Nu ao centro do salão, Mahib observou languidamente os presentes e o único que fez foi pedir que o deixassem só. Por mais amaldiçoado que fosse, ainda lhe restava algum amor-próprio.



Publicado por Diego Spagnuelo às 23:07
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